Os anos 60 acarretaram mudanças comportamentais, estruturais e políticas. O Brasil foi apresentado a um novo tipo de governo, autoritário e violento, que levou aos brasileiros à necessidade de transformação dos parâmetros. Essas mudanças ocorreram em todo país, mas a maior manifestação foi no campo artístico. Dentre as artes, a música colheu grandes adeptos à revolução contra a ditadura. O uso de licenças poéticas, metáforas, ironias e figuras de linguagem em conjunto com belas melodias formou obras engajadas contra a ditadura dos militares.
Com o AI-5, a ditadura militar ganhava um novo significado. O governo de Costa e Silva iniciou o período mais violento da história brasileira. A tortura, a violência e a censura se tornaram parte do cotidiano dos militantes brasileiros. Esse é o caso de Erasmo Azevedo, 67 anos, militante estudantil e torturado nos porões do DOI-CODI. “Até hoje eu escuto os gritos da tortura”, conta.
Erasmo é um dos vários exemplos de pessoas que foram torturadas pelos militares brasileiros. Ele conta que a pior tortura era ficar escutando desaforos em silêncio dentro de uma sala escura, ou então, ficar amarrado escutando barulho de água caindo em um balde. “Era atordoante. Se não fiquei louco, devo isso aos meus filhos, que me deram força de longe. Eu sabia que eu tinha uma família a resguardar”. Escritor de poemas, Erasmo acredita que a música ajudou a conquistar novos horizontes. “As letras contribuíram nas manifestações estudantis, era uma forma de rebeldia contra os militares. Eles eram os gatos e nós, os ratos.”
Enquanto isso, os EUA passavam por tempos difíceis de guerra, violência e decepção. Os anos 60 terminavam e perguntas sobre o futuro eram feitas. A guerra do Vietnã fez com que os jovens norte-americanos se revoltassem contra o sistema de violência e intolerância adotado pelo país. Com protestos, queimas de cartas de recrutamento, choques diretos com a polícia e revolta contra o Pentágono, essa juventude organizava um movimento pela paz no mundo.
Segundo o americano, Donald Williams, 58 anos, o clima de insegurança dominava os EUA em 1968. “Com medo da Guerra do Vietnã, muitos americanos, como eu, saíram dos EUA em busca de justiça e, os que ficaram, manifestaram sua insatisfação através de eventos e protestos. O maior deles foi Woodstock”.
Realizado em uma fazenda nova-iorquina, o festival de Woodstock é considerado o maior evento de rock ‘n roll da história. Em sua edição, o festival contou com 400 mil jovens que gritavam e se reuniam pela paz mundial. O acontecimento teve a presença de ícones do rock mundial como Sweetwater, The Who, Santana, Creedance Clearwater Revival e Jimi Hendrix. “Juntamente com os Beatles, aquela foi a melhor geração do rock ‘n roll. Todos que tocaram naquela fazenda se tornaram lendas e pediam paz. Eles eram a bola da vez”, ressalta Donald.
We all want to change the world / But when you talk about destruction / Don’t you know you can count me out
(Nós todos queremos mudar o mundo, mas quando você fala em destruição, já sabe que não pode contar comigo)
Trecho da música Revolution dos Beatles
Filho de brasileiros, Donald conta que quando chegou ao Brasil, seu pai não acreditava na ditadura. “O primeiro pensamento foi que aconteceria a mesma coisa no Brasil, teríamos uma guerra, porém, aqui, essa guerra seria civil”. Mas tudo foi diferente. “A classe média pouco sofreu com a ditadura, acabamos ficando imunes aos militares. Porém, quando comecei a faculdade, percebi de fato o que estava acontecendo. Em grande parte, foram as músicas de Chico e Caetano que me fizeram enxergar a verdadeira situação do país”, conta o professor de inglês.
Já para Cássia Bueno, 55 anos, a música não foi um diferencial na ditadura. “A maioria dos artistas da época se filiaram ao Partido Comunista não por amor à Pátria, mas sim por busca de fama através de uma imagem rebelde que era a moda da época”. Cássia afirma que o ano de 1968 tornou-se famoso pela assinatura do AI-5 e deu início a uma série de acontecimentos que definharam a ditadura no Brasil. “O próprio Costa e Silva era contra o AI-5, eu me lembro bem dele falando que queria ser o mais democrático dos governantes do Brasil”.
A enfermeira Laura Flores, 55 anos, presente em muitos manifestos estudantis da época, crê que a vida política do país e a maneira de pensar das pessoas da época foram fundamentadas na música cantada por Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo. “Será muito difícil encontrarmos outra geração musical que tenha influenciado tantas pessoas como esta. Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores, escrita por Geraldo Vandré é, sem dúvida, o hino da época. Ele conseguiu sintetizar todo o sentimento dos estudantes em uma letra. A música denunciava abusos e dava esperança ao público.”
Vem, vamos embora, que esperar não é saber/ Quem sabe faz a hora, não espera acontecer.
Trecho da Música Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores, apresentada por Geraldo Vandré no festival de 1968.
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