4 Maio 2008
Tropicália ou Panis et Circenses
Posted by tomcosta under MPB, Tropicália | Etiquetas: Add new tag, Caetano, Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes, Tom Zé, tropicalismo |Tropicália ou Panis et Circences
O ano é 1968. O cenário cultural e político são de uma efervescência constante. O espírito libertário promete abalar velhos conceitos e as trincheiras da resistência começam, inevitavelmente, a surgir diante de um regime autoritário.
O movimento tropicalista mostrava sua face no III Festival de MPB da TV Record, com a participação das músicas “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso, acompanhado dos Beat Boys e “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil, acompanhada de Os Mutantes.
Porém, foi no álbum coletivo “Tropicália ou Panis Et Circensis”, lançado em julho de 68, que o manifesto se firmou e o movimento se mostrou a um país no mínimo desacostumado com tais inovações na música brasileira.
O maestro Rogério Duprat, arranjador de maior parte das músicas tropicalistas, afirmou em entrevista a Ana de Oliveira: “A Tropicália foi o único movimento que fez algo difícil de fazer no mundo, e com originalidade”.
Entre o bolero e o Rock, o samba e salsa, as letras e arranjos impressionaram pela mistura e pelo caráter supostamente descompromissado com as questões políticas.
A presença de Caetano, Gil, Gal, Tom Zé, Os Mutantes e Nara Leão, sob a batuta de Rogério Duprat, reafirmavam uma polêmica que opunha experimentalismo e engajamento, participação e alienação.
“Pretendiam ser uma esquerda radical, mas não eram radicais coisa nenhuma, porque na verdade defendiam valores ultrapassados”, disse Duprat sobre os contestadores do tropicalismo.
Em contraposição às canções de protesto de Chico Buarque e “Caminhando e Cantando”, de Geraldo Vandré, músicas como “Panis et Circensis” e “Geléia Geral” aumentam os confrontos entre os nacionalistas de esquerda e os vanguardistas tropicalistas.
Estes propunham a internacionalização da cultura e uma nova expressão estética, não restrita ao discurso político. Para eles, entender a cultura de massas era tão importante quanto entender as massas revolucionárias.
Além dos discos lançados, as apresentações nos programas de TV impulsionaram o movimento. Em especial, na final do III Festival Internacional da Canção (FIC), realizado pela Rede Globo no dia 15 de Novembro de 68, que Caetano e Gil se manifestaram contra o “bom gosto” que a patrulha de esquerda e direita impunham à cultura.
Debaixo de vais veio a desclassificação da música “Questão de Ordem”, de Gilberto Gil. Em seguida, Caetano, com a música “É Proibido Proibir”, entrou em confronto com a platéia.
Em um momento reconhecido como um marco, Caetano, vestido com roupa de plástico brilhante e colares exóticos, e Os Mutantes foram recebidos com ovos, tomates e pedaços de madeira.
A platéia de costas para o palco e, em resposta, a banda de costas para platéia e o discurso inflamado de Caetano: “Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada”.
Em uma ano que marcou a eclosão e fechamento de tudo, o movimento não compreendido teve seu final com a prisão de Caetano e Gil, logo após a promulgação do AI-5.
Porém, os discos dos dois artistas, lançados em 67, e o disco-manifesto “Panis et Circensis” marcaram a época a ainda hoje influenciam músicos e artistas de modo geral.
“Não dá para trocar isso por nada. Aconteceu uma única vez e não terá mais repetição. Foi no lugar certo, na hora certa e com as pessoas certas”. Assim afirmou Manuel Barenbein, produtor musical dos artistas do tropicalismo e de muitos outros que fizeram história.
História que hoje é relembrada nesses 40 anos do tropicalismo, de uma vanguarda que impressionou e ainda impressiona muitos iniciantes ou veteranos no universo musical.
Como Lucas Prates, 20, estudante, fã dos mutantes há oito anos. “Com a entrada do rock psicodélico no Brasil através dos Mutantes, houve a junção de vários ritmos, como sertanejo, bossa nova e samba, o que possibilitou a criação de um som único, nacional, reforçando o movimento tropicalista”.